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Homilias

Escrito em 29/03/2018

Homilia da Missa da Ceia do Senhor

Iniciemos então o tríduo sagrado com idêntica expectativa e igual premência, pois é de urgente libertação que se trata

Homilia da Missa da Ceia do Senhor
Fotos: Rudger Remígio

ANO B
29/03/2018

Ouvimos na primeira leitura, tirada do livro do Êxodo, esta ordem de Deus ao seu povo, prestes a libertá-lo do cativeiro egípcio: “Cada um tome um cordeiro por família […]. Tomareis um pouco do seu sangue, e untareis os marcos e a travessa da porta das casas em que o comerdes […] Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. “E comereis às pressas: pois é a Páscoa, isto é a passagem do Senhor. Naquela mesma noite, passarei pela terra do Egito […]. Ao ver o sangue, passarei adiante, e não vos atingirá a praga exterminadora […]. Esse dia será para vós uma data memorável em honra do Senhor”.

Caríssimos irmãos, aqui reunidos na Missa da Ceia do Senhor, inaugurando o tríduo pascal de 2018: Como acabei de referir, trata-se de 2018, o que nos transporta ao século XXI cristão, somado aos doze ou treze em que fora o tempo de Moisés e a primeira Páscoa referida… É caso para justamente nos interrogarmos sobre o porquê desta leitura, feita agora e no diferentíssimo contexto em que vivemos.

A resposta começa a ser dada pela nossa presença aqui. O texto lido e ouvido, fala-nos certamente da libertação do Egito. Mas a memória guardada pelos nossos antepassados do primeiro testamento é base indispensável para a que ganhamos em Cristo, “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Indispensável, sim, requerendo meditação mais compassada. Retomemos os pontos essenciais: um povo submetido a opressão; Deus, que não o queria assim e suscitara em Moisés a cooperação indispensável para libertar os seus irmãos; um Egito que não os queria deixar partir; um cordeiro que se devia comer em família e cujo sangue assinalaria as suas casas, resguardando-os quando o Senhor passasse; e tudo com urgência e grande pressa, porque se tratava de partir.

Quando o Senhor passasse… Esta passagem definiu a Páscoa, antiga ou nova. Passagem de Deus, que tomará em Cristo a última expressão e figura - mas é sempre sua a Páscoa, e será nossa a libertação de quantos “Egitos” nos cativarem. E nem faltará o “sangue”, sinal da vida que nos protege.

Iniciemos então o tríduo sagrado com idêntica expectativa e igual premência, pois é de urgente libertação que se trata. Não cumprimos exteriormente um ritual, antes nos cumprimos nele, permitindo que as palavras e os gestos nesta Santa Missa repetidos nos impregnem profundamente o coração com um poder tão salvador como o que tirou o povo daquele cativeiro antigo.

Urgência, disse, porque a Páscoa não se atrasa, e muito menos o Senhor que passa e espera ver nas nossas casas, isto é, nas nossas vidas, o sinal visível de que nos dispomos realmente a partir.

Creio que partilhareis comigo a convicção de que a Páscoa do mundo – deste mundo nosso, tão carregado e sofrido como está em tantos, longe ou perto – demora ainda e demasiadamente demora, porque atrasamos a partida, aquela saída de muitos cativeiros onde por vezes parecemos acomodar-nos.

Não nos faltam repetidos “Moisés”, que da parte de Deus nos garantam os êxodos, as saídas possíveis. Não nos faltam séculos e séculos dos dois testamentos, a demonstrar que quem parte encontra caminho, na disposição mais firme para seguir em frente. E, no entanto, entre agora cada um de nós na casa do seu coração e veja se está pronto, realmente pronto e decidido, a sair de quanto o prende e espiritualmente limita. Não tanto pelas suas forças, mas primeiramente porque Deus o quer e inteiramente porque Deus o pode. Deus passa e nós partiremos com Ele.

No momento atual que vivemos e sofremos, por nós ou pelos outros, repetem-nos sucessivamente a pergunta sobre o que afinal fazemos enquanto Igreja e como respondemos à famigerada “crise”. Creio que a resposta só pode ser uma, como, aliás, é dada por tantas vidas de fato convertidas: há muita gente que, por se dispor realmente a sair de cativeiros vários e egoísmos múltiplos, confia mais em Deus do que em conjecturas sobre o que pode ou não pode, teme ou não teme, e avança, solidariamente avança, como “povo” avança, ainda que os desertos sejam longos e o horizonte apenas se entreveja.

Na Páscoa de 2018, nesta catedral e em todas as famílias e comunidades cristãs, nós somos e só podemos ser um povo disposto a partir – não como emigrantes geográficos mas como gente convertida a um Deus que nos faz estar ainda mais aqui, em doação e serviço.

Como discípulos de Cristo, ouvimos o trecho de Paulo aos coríntios, no primeiro resumo da tradição eucarística: “O que Eu recebi do Senhor foi isso que vos transmito: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu Corpo, entregue por vós. […] Este cálice é a nova aliança em meu Sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em memória de Mim”.

Isto dissera Jesus naquela última ceia em que resumira o significado de toda a sua vida entre nós e por nós entregue. Da sua Páscoa afinal, como também ouvimos, no Evangelho que se seguiu, começando assim: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim…”.

- Que sabemos nós então e enquanto cristãos sabemos e professamos? Sabemos que, em Jesus, temos o Cordeiro que nos alimenta e salva, como alimento para o caminho e sinal protetor; sabemos que nele é o próprio Deus que passa e que, com ele sempre, também nós passamos deste mundo para o Pai, numa filiação finalmente cumprida, que nos realiza inteiramente a nós e igualmente liberta o mundo, fazendo respirar a criação inteira.

Também isto nos disse Paulo, noutra das suas cartas, divisando o horizonte imenso duma Páscoa cumprida, em nós e no mundo, ou, por nós, no mundo: “Vós não recebestes um Espírito que vos escravize e volte a encher-vos de medo; mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adotivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai! […] Até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus” (Rm 8, 15.19).

Em tudo é sempre e só de Páscoa que se trata, passando com Cristo para o Pai e reencontrando no coração de Deus a libertação definitiva de quanto nos retém e escraviza, em corações fechados por egoísmos e medos que sufocam tristemente o mundo.

Não ficamos por enunciados gerais ou ideias abstratas. O Evangelho não podia ser mais concreto e impressionante, no gesto de Cristo, Filho de Deus na terra: “Levantou-se, da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos”.

Absolutamente assim e nada menos do que isto, caríssimos irmãos em Cristo. Iniciando a celebração pascal, que hoje e sempre nos urge uma conversão autêntica, temos de vencer a compreensível hesitação de Pedro e deixar-nos servir por um Deus humilde, que nos olha de baixo para cima, para nos lavar os pés…

Compreensível hesitação de Pedro, demorada compreensão nossa, de como é o Deus de Jesus Cristo, pedindo que O deixemos servir-nos. Na verdade, insistimos em reter Deus na grande altura, como se O dispensássemos da vida “cá em baixo”. E isto, mais para a determinarmos nós e ao nosso modo, do que por lhe respeitarmos a indesmentível transcendência. E talvez porque aceitá-lo assim, como Jesus insiste que aceitemos, implica valorizar a extrema simplicidade das coisas como lugar onde Deus nos procura; implica servi-lo humildemente nos outros, em quem sempre se apresenta e nos espera. – Custa tanto aceitar um Deus que se ajoelha e nos quer lavar os pés!

E, no entanto, é assim. Acompanhamos hoje a instituição da Eucaristia e do sacerdócio da nova aliança. E nem uma nem outro significam grandezas que ofusquem: pão e vinho consagrados, para serem o próprio Deus oferecido; um pequeno grupo de discípulos, consagrados também, para que a memória daquela oferta não se extinga mais na terra.

Aceitemos a Deus, que em Jesus se entrega em simplicidade tamanha. Partamos como os hebreus daquela noite, com o essencial do que somos e havemos de oferecer, se urgentemente partirmos. Rendamo-nos de vez à evidência cristã das coisas, à exigente humildade de Deus.

Para não esquecermos, e realmente cumprirmos, o que a seguir nos ordenou Jesus, nosso Cordeiro e Pastor: “Se Eu vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu o fiz, vós façais também”

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