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Homilias

Escrito em 06/03/2019

Homilia da Missa de Quarta-feira de Cinzas

“Rasgai os vossos corações, não as vossas vestes” (cf. Jl 2,13).

Homilia da Missa de Quarta-feira de Cinzas

Os textos sagrados que proclamamos nesta liturgia repetem de forma exaustiva e insistente o apelo à conversão que marca determinadamente toda a Quaresma. A liturgia deste dia aponta-nos o Espírito que deve animar todo este tempo quaresmal. Na Primeira Leitura, o Profeta Joel convoca todo o povo de Israel em Assembleia de forma veemente e o exorta à conversão. “Rasgai os vossos corações, não as vossas vestes” (cf. Jl 2,13). O Profeta estava convencido que a causa da situação difícil que o povo estava a viver se devia ao esquecimento de Deus e ao descuido da aliança. O Profeta pede autenticidade no amor de Deus. O Salmo 50 que proclamamos é também um apelo forte à penitência. Pequei Senhor, misericórdia. 

A primeira atitude é reconhecer que erramos muito, necessitamos da graça e do perdão divino. Na Segunda Leitura São Paulo fala aos Coríntios e hoje a nós, desafiando-nos: “deixai-vos reconciliar com Deus” (cf. 2Cor 5, 20), é agora o momento favorável. No Evangelho, Jesus apresenta três práticas religiosas dos judeus: a caridade, a esmola, a oração e o jejum, que devem ser realizados com autenticidade e sem exibicionismo. São os três caminhos quaresmais apontados pela Igreja. A oração deve vislumbrar uma experiência pessoal com Deus ao conhecimento e união com Deus. A oração que este tempo nos sugere vai além das simples fórmulas tão comuns. A oração que nós somos convidados a conhecer e a praticar é a oração do cego e do publicano. Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim. Oh meu Deus, tem piedade de mim pecador. É uma oração de súplica e de reconhecimento de quem se reconhece pecador. Trata de uma oração de quem busca através dela a profunda e íntima união com Deus. O jejum deverá nos levar ao gesto concreto de conversão, privados de algo para uma liberdade interior maior. O jejum também vai muito além da abstenção de alimentos. 

O Profeta Joel acusa-nos dizendo que reduzimos a exigência divina a um simples formalismo exterior. Rasgai o coração e não vossas vestes. Que valor tem deixar de comer carne para substituir por um prato de macarrão que custa muito mais caro? Joel fala de um jejum que apela para uma conversão profunda, entender, jejuar como criar espaço no vazio em nós para que a graça de Deus nos refaça e nos preencha. A caridade deve levar-nos a doar-nos aos irmãos no seu serviço fraterno em gestos de solidariedade e de partida, renúncia quaresmal. A esmola que foi o nome usado também na Bíblia para a caridade, não se reduz a oferta de dinheiro, alimentos, roupas ou outros objetos que não precisamos. Misericórdia eu quero e não o vosso sacrifício. Deus espera que tiremos algo de nós mesmos para lhe oferecer. A oferta exterior precisa simbolizar e significar essa doação interior tirando algo de nós mesmo que seja um pedaço para oferecer a Deus. Há 55 anos consecutivos a Igreja no Brasil nos propõe que durante a Quaresma também desenvolvamos a Campanha da Fraternidade. A campanha deste ano como vimos é sobre a fraternidade e as políticas públicas, embora seja um tema complexo, temos que enfrentá-lo com determinação, com estudo e com muito empenho penitencial. A exigência principal é capacitar nossas comunidades e colaborar com o povo brasileiro a fim de que todos compreendam e tenham condições de participação na formulação de políticas públicas. Um apelo especial dirigimos aos jovens e às famílias para que participem efetivamente na elaboração de políticas públicas a fim de que cresçam na consciência dos seus direitos e de suas responsabilidades. 

Nossa participação para a construção de políticas públicas tem motivações bíblicas e orientações do magistério da Igreja. Para os profetas, o jejum que Deus aprecia é aquele que quebra o julgo dos oprimidos e reparte o pão com os que tem fome é aquele que nos liberta pelo direito e pela justiça (Is 1, 27) que é o lema da Campanha da Fraternidade. Liberta pelo direito e pela justiça. Em Jesus, como discípulos missionários encontramos o grande exemplo do Bom Pastor que tem profunda compaixão pelo povo e por isso multiplica os pães para o combate à fome. Em dois meses apenas deste ano enfrentamos grandes tragédias no Brasil e muitos impasses no mundo. Em Brumadinho, centenas de pessoas foram cobertas de lama; no Rio de Janeiro, jovens morreram queimados em seus alojamentos; na Venezuela, uma grande crise política e social põe em risco a vida e a paz. Esses e tantos outros dramas ocorridos na sociedade e na Igreja estremece nossas almas e inquieta os corações. É preciso, porém, vencer a indiferença e o medo. É preciso que todos nós como Igreja tenhamos o olhar fixo no Senhor e atento à verdade. É preciso que nossa caminhada penitencial nos conduza à verdadeira conversão de vida e ao verdadeiro compromisso com os irmãos. Se compreendermos em profundidade sobre o significado das cinzas colocadas em nossas cabeças, entenderemos que não podemos gastar as nossas vidas levianamente, compreenderemos que o amor solidário jamais acabará e iremos percorrer os desertos áridos sem perder a confiança na Páscoa de Cristo. Faremos a passagem por esse mundo com altivez e perseverança crescendo no amor e na fraternidade. Cultivaremos nesta terra os sinais do reino definitivo em enfim na hora que o Senhor nos reserva experimentaremos da graça pascal, salvos e libertos com Cristo Jesus, que assim seja. Amém!

 

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