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Escrito em 29/11/2019

“Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17, 10)

Senhor, que eu também tenha coragem de servir

Pe. Alaor Rodrigues

Pe. Alaor Rodrigues

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Nas raízes de minha história de vida, houve uma catequese familiar, um testemunho bonito de meus pais, irmãos e irmãs. Nesse berço, fui orientado e apoiado a entrar no seminário por Frei Beraldo, ofm, e Irmãs Franciscanas, de Ceres (GO). Minha vida robusteceu-se e encontrou sentido para novas etapas. Nestes dias, celebro com humildade, gratidão e caridade pastoral meus 80 anos de batismo e 50 anos de minha ordenação presbiteral. 
 
Com humildade, tenho muito a agradecer e digo como a Mãe de Jesus e nossa: “O Senhor fez em mim maravilhas!” (Lc 1,49). Eu não sou nada além de minhas limitações e meus pecados. Não tenho vocação para estrelismo. Quero simplesmente ter a oportunidade de servir e não servir-me de qualquer coisa ou de uma estrutura para produzir uma imagem hipócrita da minha vida como ela é. Tenho fé. Sou apaixonado por Jesus Cristo, Deus conosco. Amo a Igreja santa e pecadora. Não tenho medo dos pobres nem de seus questionamentos e de suas causas. 
 
Tive a graça de viver como estudante de teologia no tempo de preparação e nos dias do Concílio Vaticano II. Dom Helder Câmara e os professores do Seminário Regional do Recife ajudaram-me a escutar, ler e dialogar com transparência o pulsar das palestras na Domus Mariae – bom material era disponibilizado, traduzido ou resumido como notícia do que acontecia nos debates, o que era ventilado nos corredores do Vaticano e na Ala Conciliar. Eu vibrava com muita esperança. Mergulhei, enquanto pude, na certeza de que a Igreja estava em condições para o diálogo interno e com o mundo científico, econômico, cultural e entre as religiões. 
 
Como subsecretário do Regional Centro-Oeste da CNBB, eu sentia a vida da Igreja no Brasil, participando nas reuniões dessa instituição no Rio de Janeiro e em Brasília. Vivenciei a mesma coisa, com algumas dúvidas e limitações, enquanto eu estava na assessoria nacional da Conferência.  Em Goiânia, pouco a pouco, passei a conhecer Dom Fernando Gomes dos Santos: homem de fé, temperamento forte, comprometido com a causa dos pobres e com o testemunho de fé e pastor peregrino. O homem certo que chegou na hora certa para o Centro-Oeste. Dom Fernando aproximou-me de um grupo de teólogos do Brasil e da América Latina. Lembro que não sou teólogo nem nunca tive pretensões de ser um intelectual orgânico.
 
Dom Antonio Ribeiro de Oliveira fez a experiência do Reino de Deus. Sua palavra era encharcada na Palavra de Deus, na tradição apostólica e no magistério da Igreja. Foi um bispo que ficou muito próximo de Pedro, desde o papa João XXIII até o papa Francisco, era muito próximo dos padres, humano e pastor amigo dos mais excluídos e sofridos. O segundo arcebispo de Goiânia sabia que o lugar do outro é sagrado, que é possível colocar o dedo nas feridas do irmão e nele descobrir a presença do próprio Jesus Cristo. Ele sempre dizia: “Só Deus é Deus”.
 
Nestes últimos anos, agradeço muito a Deus porque Dom Washington Cruz tem sido compreensivo comigo. Ele entende minha preocupção com a Caridade Pastoral e com as portas e janelas para uma Igreja em saída. A celebração dos meus 80 anos de vida e 50 anos de presbiterado é uma iniciativa dele, mesmo com minhas muitas limitações. Ele sabe de meu empenho na busca de fidelidade a Jesus Cristo, à Igreja, aos caminhos da Arquidiocese de Goiânia e à pessoa do meu bispo e pastor. Deus lhe pague, Dom Washington.
 
Aqui não é lugar para discussões teológicas, eclesiológicas, econômicas nem políticas, mas, de modo muito resumido, conto alguns caminhos passados por quase todas as paróquias administradas pelo clero da Arquidiocese. O desafio de levar às comunidades novo alento tornou-se uma exigência em minha vida. Trabalhei oito anos na Paróquia São Cristóvão. A cada domingo, a igreja era completamente tomada de gente. Hoje, em toda aquela região, foram constituídas cinco paróquias. Houve também luta concreta na formação das comunidades no Setor Garavelo, para onde Dom Fernando mandou-me, para ajudar o padre Yves. Uma palhoça de coqueiro era a matriz, e missas eram celebradas nas casas de famílias ou debaixo de uma árvore. Menos de um ano e o querido padre Yves foi para tratamento em sua terra natal. Quando formamos 18 comunidades, Dom Fernando mandou-me para Uberlândia (MG) visitar e conhecer os Padres Oblatos de Maria Imaculada. Tive sorte na conversa. Eles vieram para conhecer e do arcebispo ouviram: “Arregassem as mangas. Vamos trabalhar. O padre Alaor e a irmã Cebele cuidam dos pais...”. Tenho uma profunda gratidão aos queridos Padres Oblatos de Maria Imaculada pelo grande bem que eles fizeram e fazem. Hoje, naquela região, são cinco paróquias. Coisa semelhante aconteceu quando Dom Antonio Ribeiro mandou-me para o Setor Colina Azul, em Aparecida de Goiânia. Lá, encontrei-me com as Irmãs Ursulinas de São Carlos, eram apenas três comunidades e muitos desafios. “Com as Irmãs formamos a família trapo”. 
 
Dedicação radical, presença de corpo inteiro entrando pelas casinhas das famílias, formando grupos de terço, grupos de vizinhos. Foi deste serviço concreto que surgiram mais 15 comunidades e chegamos a 18. Apelei para Dom Antonio e ele mandou-me para uma visista a um bispo na Itália. Três meses depois, o bispo de Vicenza e o arcebispo de Goiânia deram um passo necessário e enviaram três padres para a paróquia com 18 comunidades. De lá trago também muitas lembranças felizes. Na Paróquia Santa Maria, rapidamente aconteceu o surgimento de outros loteamentos, com a chegada das famílias do Morro da Aranha do Setor Norte Ferroviário, formamos 13 comunidades. Foi válida aquela convivência pastoral. Estou aprendendo no dia a dia que a morte e a injustiça não se constituem a última palavra da história. 
 
Assim, agradeço a Deus, à minha família, à Igreja Católica, à Arquidiocese de Goiânia, na pessoa de Dom Washington Cruz, aos amigos que têm visões diferentes do mundo, da sociedade e até do Cristianismo. Deus proverá.
 

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