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Escrito em 15/03/2018

A identidade laical em busca das fontes bíblicas (Parte I)

“Vós que outrora não éreis povo [ou laos], mas agora sois o povo [laos] de Deus” (1Pe 2,10).

Pe. Eguione Nogueira, cmf

Pe. Eguione Nogueira, cmf

Missionário claretiano, nasceu em Ceres-GO aos 15 de fevereiro de 1987. Entre 2015 e 2017, estudou Teologia Pastoral na cidade de Madri. Em 2017 assumiu como Vigário Paroquial na Paróquia Imaculado Coração de Maria em Curitiba/PR, onde está atualmente.

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A busca pela identidade do leigo deve percorrer o caminho da Revelação, ou seja, é preciso que lancemos um olhar mais atento às Sagradas Escrituras, especialmente às comunidades do Novo Testamento, e à tradição da Igreja.

Uma primeira constatação é que a palavra “leigo” (em grego laikós) não está presente no Novo Testamento. Mas, isso não nos impede de dizer que ela tem na Bíblia um ponto de referência. Comecemos pela referência às comunidades cristãs: “igreja [ecclesia] de Deus, que está em Corinto” (1 Cor 1,2); “igreja de Tessalônica, em Deus Pai, e no Senhor Jesus Cristo” (1Ts 1,1); “povo [laos] de Deus” (1Pe 2,10; Hb 4,9); corpo (soma) de Cristo (1Cor 10,16).

É interessante notarmos que as comunidades são designadas em referência a Deus (a Cristo), ou seja, sua identidade está fundamentada em Deus, são comunidades pertencentes a Deus. Quanto aos membros dessas comunidades, encontramos várias formas de designá-los: chamados kletoi (1Cor 1,2; 1Pe 2,21), santos (hagioi (At 9,13; 1Co 1,2), discípulos (mathetai) (At 6,1ss;Cl 3,18), mas, sobretudo, irmãos (adelphoi) (1Ts 1,4; 1Tm 4,6; 2Co 1,8).

No fundo, o que está por detrás das experiências comunitárias do Novo Testamento é que todos os cristãos formavam parte do povo escatológico que Deus havia reunido por intermédio de seu Filho. Aqueles que, respondendo ao chamado de Deus, fazem parte desse povo, tornam-se vinculados a Cristo e unidos uns aos outros. É por isso que são consagrados (kletoi, hagioi), pois passaram de ser “não povo” à herança dos filhos de Deus. Essa foi a primeira tensão existente na Igreja: a comunidade inteiramente consagrada a Deus, de um lado, e o mundo, de outro: “Vós que outrora não éreis povo [ou laos], mas agora sois o povo [laos] de Deus” (1Pe 2,10).

Se recorremos a expressões como “povo sacerdotal” (Ex 19,6; 1Pe 2,9-10) ou “templo espiritual” (2Cor 6,16-19), veremos que, ao utilizar conceitos que tratavam da pureza, o Novo Testamento quer enfatizar que toda a comunidade cristã está consagrada a Deus, sem fazer distinção entre os diversos ministérios eclesiais.

A partir desses textos bíblicos cabe sinalizar que a Igreja, enquanto comunidade de todos os batizados, tem como referência sua relação com Deus (Igreja de Deus, povo de Deus, corpo de Cristo). A vida cristã surge da nossa incorporação ao corpo místico de Cristo pelo Batismo, o que equivale a dizer que todos somos eleitos, santos discípulos e, principalmente, irmãos (cf. At 6,3).

Nesse sentido, como veremos em outro momento, o Concílio Vaticano II resgatou uma ideia essencial: pertencer ao povo de Deus é anterior a qualquer distinção hierárquica na Igreja. A identidade laical deve ser definida não mais pela via negativa (“não clérigo”, “não religioso”), mas pela pertença a um povo consagrado, em que todos participam e são corresponsáveis pela missão da Igreja no mundo.

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